Friday, February 23, 2007

Nu Bai


Nu Bai é um filme documentário de um jovem realizador brasileiro, Octávio Raposo, que retrata o quotidiano de jovens moradores em vários bairros sociais (eu diria mesmo guetos) nos arredores de Lisboa – Cova da Moura, Arrentela, Pedreira dos Húngaros, Chelas, Miraflores, entre outros – e a cultura Hip-Hop que está enraizada nessas comunidades luso-africanas.

Nesse documentário os seus protagonistas (entre os mais conhecidos encontram-se Chullage, Niga Poison e Kronic,) revelam as suas ambições, frustrações e especialmente a sua revolta perante o sistema.

Devo dizer que gosto de algum Hip-Hop mas não me identifico por aí além com a sua cultura. Identifico-me pouco mais que com a parte da crítica social e revolta contra o sistema que lhe está subjacente. Contudo compreendo o sentimento de revolta de quem se vê marginalizado, pelo menos à duas gerações, por uma sociedade com valores culturais diferentes, mas algumas vezes por culpa própria, é importante dizê-lo.

Em relação ao documentário propriamente dito este começa com o Chullage a dizer que o que se faz naqueles bairros em termos de música é o mesmo que outros camaradas (são palavras do próprio) fizeram no passado, nomeadamente Zeca Afonso e José Mário Branco, ou seja música de intervenção contra um sistema injusto que é preciso combater.

Sendo inequívocas as diferenças entre o sistema actual e o que outros camaradas combateram (e agora as palavras são minhas), e tendo em conta que este apesar de tudo é melhor sem a mínima dúvida, devo dizer que na minha opinião talvez o sistema actual seja mais difícil de combater que o sistema que outros camaradas combateram, uma vez que este (o Fascismo) era visível, tinha um rosto e nomes, sabia-se onde é que ele estava. Hoje em dia o sistema anda aí disfarçado de coisas bonitas e falsas liberdades, esconde-se atrás das boas intenções e das falsas ilusões. E só a alguns mostra a cara e se apresenta como Sonae, BCP, PT, Mc Donald´s e outras multinacionais, etc.

De volta ao documentário, entre muito Hip-Hop, algumas visões do mundo, desabafos e fórmulas mágicas para se fazer rap e vencer o sistema, surge mais uma “dica” por parte do Chullage (sem dúvida o melhor orador do filme) em que diz que os habitantes desses bairros são usados como cavalos de batalha por parte do poder político na altura das eleições, tanto à esquerda como à direita.

Realmente quem é que nunca viu um líder político em campanha a passear-se por um desses bairros? E quem é que os vê lá noutras alturas? E o que é que se tem feito para ajudar essas pessoas? Na minha opinião muito pouco. Se bem que as culpas não podem ser igualmente distribuídas pelos vários partidos uma vez que os seus poderes são muito diferentes. E para isso basta ver a diferença no assento parlamentar e o mapa da distribuição autárquica “por cores”. É mais ou menos nessa proporção que se deve culpabilizar o poder político. E digo mais ou menos porque a atitude perante o problema é bem diferente de partido para partido, em especial entre a esquerda e a direita.

Moral da história: tentem ver o documentário que vale a pena!

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